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Mau
uso da Internet sabota estudo RODRIGO CAVALHEIRO* Diante do computador conectado à Internet, qualquer criança pode assinar uma tese acadêmica. Para inquietação de professores, instituições e pais, endereços eletrônicos oferecem trabalhos escolares e universitários prontos sobre qualquer tema. Escolas e universidades estão despertando para o problema e começam a adotar medidas para coagir o plágio. Os sites da Internet que se aproveitam da indolência de estudantes tanto vendem trabalhos e teses feitos sob encomenda quanto os colocam à disposição gratuitamente. Nos gratuitos, basta escolher a página e optar pelo trabalho mais parecido com o tema proposto pelo professor. – Aí é só colocar no editor de texto, mudar a fonte e imprimir com meu nome – diz um estudante de 13 anos, aluno de 8ª série em escola da Capital. Nas dezenas de sites que se apresentam como fontes gratuitas de consulta, esse processo não leva mais de cinco minutos. É o caso do que leva o nome sugestivo de www.zemoleza.com.br e contabiliza mais de 450 mil acessos. O acervo da página é de cerca de 4 mil trabalhos prontos. Os professores estão aprimorando os métodos de avaliação para voltar a formar bons estudantes em vez de hábeis copiadores. Grande parte dos mestres viu-se obrigada a se precaver, restringindo a abrangência dos temas das pesquisas. A conclusão é de que não há mais espaço para pedidos clássicos como “Fale sobre a Revolução Russa”. Uma consulta para esse tema no site de busca www.google.com indica 7 mil páginas para consulta. A solução encontrada, neste caso, seria limitar o tema à “participação dos grupos políticos durante a revolução”. Além de tornar mais específico o assunto, Maurício Marczwski, professor do Colégio Anchieta, na Capital, decidiu exigir a citação das fontes de pesquisa. Ele também cobra uma crítica separada do aluno sobre o tema. Para Helena Sporleder Côrtes, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a solução é estimular a valorização da ética desde as séries iniciais, impedindo que a prática avance até a universidade. A necessidade de motivação é destacada pela professora Eliane Schlemmer, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos): – O tema precisa, se possível, associar a pesquisa a situações reais. O professor de história Marcelo Paiva revela: – Já tive caso de quatro cópias idênticas de trabalhos, em que só o cabeçalho era diferente. A Universidade Federal de Pelotas (UFPel) estuda maneiras de impedir a pirataria. A pró-reitora de Graduação, Anne Moor, propõe a defesa oral com a pesquisa por escrito. Na semana passada, a pró-reitora teve um exemplo de como a cópia se dissemina: ela própria recebeu uma oferta de um site. Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) a recomendação é para os professores acessarem periodicamente sites para identificar plágios. No ano passado, um aluno de Jornalismo foi flagrado e recebeu zero. Há alunos que recorrem ao serviço pago oferecido por sites como o www.trabalhosprontos.com.br, direcionado a universitários e com promessa de exclusividade. O lema do Trevo Quatro Folhas é sigilo na confecção de teses, dissertações e monografias. – Recebi um e-mail oferecendo o serviço sem nunca ter consultado a página. Não tenho interesse – reclama Bolívar Torres, 20 anos, aluno do 5º semestre de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica (PUCRS). Os sites não se constrangem em lucrar. Em www.minadeideias.com.br, um candidato a uma bolsa de estudo consegue em quatro dias um trabalho, em “embalagem discreta”, desembolsando R$ 150. Se aderir ao plano de sócios, leva, por R$ 800, monografia, projeto de pesquisa, 20 trabalhos prontos, cinco trabalhos com temas personalizados, além de uma redução nos prazos. – Se eu fizesse o trabalho, ficaria bem pior do que o pronto na Internet – tenta justificar uma estudante de 14 anos, matriculada na 8ª série. A indolência já colocou a garota numa situação embaraçosa. – Entreguei um trabalho sem tirar o rodapé onde aparecia o nome da página na Internet. Ganhei zero – lembra. * Colaboraram Fábio Schaffner e Marcos Giesteira
Solução também está na Web
A própria Internet oferece um antídoto contra os estudantes que se valem dos sites de trabalhos prontos. Um serviço antiplágio online criado nos Estados Unidos está deixando os copiadores virtuais em apuros. O site www.turnitin.com apresenta um programa que localiza na Internet trabalhos e documentos com textos parecidos. Festejado pela mídia norte-americana (já foi assunto na rede de televisão CNN e no jornal The New York Times), o site é considerado um presente providencial para os educadores. Cerca de 3 milhões de pessoas utilizam o serviço, também capaz de reconhecer textos em português. – Queremos assegurar a Internet como uma fonte de conhecimento, não como um desserviço à aprendizagem – esclarecem os responsáveis pelo endereço. Segundo o site, aproximadamente 30% dos estudantes utilizam o plágio em todos os trabalhos que entregam. A promessa é não apenas descobrir quem copia, mas também evitar que a cópia ocorra. Foi o que aconteceu com um professor da Universidade de Siracusa, nos Estados Unidos. Quando anunciou que os trabalhos recolhidos seriam submetidos ao Turnitin.com, alunos pediram os seus textos de volta, para “fazer correções”. David Presti, professor de neurologia da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, é um dos usuários do sistema. Ele afirma que o plágio entre seus estudantes é próximo a zero: – O nível de confiança agora é de 100% – garante. O site permite que os professores testem o programa gratuitamente por um mês ou cinco trabalhos. É preciso preencher um formulário no endereço www.turnitin.com/free_trial.html Em poucos instantes, o usuário recebe uma senha e pode acessar o serviço. Basta submeter o trabalho suspeito e esperar 24 horas por um relatório – o próprio texto apresentado, acrescido de indicações de trechos plagiados e referências sobre os endereços eletrônicos de onde foram feitas as transcrições desonestas. Após o período de experiência de um mês, os acessos passam a ser cobrados. No endereço, é possível obter uma espécie de orçamento do serviço, por e-mail. O mesmo grupo mantém um portal especializado em informações sobre plágio na Internet, o www.plagiarism.org.
Envolvidos estão longe de punição A apresentação de trabalhos acadêmicos alheios é prática antiga, mas ainda motiva discussão no meio jurídico e educacional. Normalmente, os envolvidos na farsa são desmascarados somente quando há denúncias, e os castigos se limitam aos da instituição de ensino. A polêmica aumentou com o advento da Internet, devido à facilidade de encontrar, além das pesquisas por encomenda, trabalhos prontos. Os especialistas concordam que a prática é tão imoral como difícil de responsabilizar criminalmente. O enquadramento como crime contra os direitos autorais, por exemplo, torna-se inviável quando o autor de uma monografia autoriza o uso por terceiros. – Os professores precisarão de novos métodos de avaliação, como trabalhos manuscritos ou apresentações orais – acredita o criminalista Felipe de Oliveira, que desenvolve uma tese sobre crimes na Internet. A hipótese de o autor concordar com o plágio não é o único empecilho à punição. No meio eletrônico, os textos acabam copiados de uma máquina para outra, sem assinatura ou referências. Descobrir a origem da obra, nesses casos, é impraticável, a não ser que o próprio autor reconheça o que escreveu. Foi o que ocorreu com a professora Liane Tarouco, da UFRGS. Trabalhos por ela publicados na Internet passaram por cópias sucessivas, chegando a virar apostila nas mãos de plagiadores. Embora não exista prova de que sites especializados tenham feito a reprodução, ela protesta: – Esses sites são antiéticos e estão fraudando o sistema educacional. Na opinião do coordenador de monografias da faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS), Luís Gustavo Andrade Madeira, mesmo que não sirvam exclusivamente ao plágio, os sites de trabalhos prontos patrocinam as fraudes. Por isso, os envolvidos poderiam ser acusados de falsidade ideológica. – Infelizmente, só podemos agir se houver denúncia – admite Madeira.
Cola online e ética no conhecimento
JORGE THUMS A cópia de trabalhos acadêmicos não é novidade da tecnologia. Antes do computador, o aluno desonesto copiava ou comprava trabalhos datilografados. Chamadas do seguinte tipo são conhecidas no mundo acadêmico: “Se você não tem tempo, anda estressado, cansado e sobrecarregado de trabalhos, nós temos a solução”. O que está em jogo é a formação dos alunos nos ensinos Fundamental e Médio e a seriedade do Ensino Superior. É grande a quantidade de alunos que vêm até a universidade semi-alfabetizados, com baixo rendimento escolar e com incapacidade para escrever e ler – apesar das boas notas. Lembro-me, recentemente, de uma aluna de primeiro semestre da faculdade enaltecendo sua capacidade de ler o primeiro livro. A escola de ensinos Médio e Fundamental produz uma gama enorme de pessoas despreparadas. A universidade, por sua vez, pouco interessada no processo de construção de conhecimento, reproduz o mesmo modelo. Há uma espécie de cumplicidade e promoção da ignorância. Alguns professores mais radicais afirmam que a Internet se tornou um convite à desonestidade. O problema não está na Internet, o problema está no professor e no aluno, nas relações e no conhecimento desenvolvido e produzido em aula. É preciso estabelecer contratos e comprometimento do fazer pedagógico. É preciso acabar com o professor fazendo de conta que ensina e o aluno fazendo de conta que aprende. O conhecimento, por definição, envolve compromisso, responsabilidade e ética. Não tenho preocupação com a cola do internauta. Tenho preocupação com a pessoa do aluno, seu conhecimento e sua posição ante a vida. O que vai diferenciar um aluno de outro, diz Michel Serres, é a sua capacidade de crítica, sua postura acadêmica, sua responsabilidade com o conhecimento. Quanto aos sites online, é um problema de legislação. O conhecimento deve ser personalizado, apropriado pelo aluno, deve ter o rosto e a inteligência do aluno. Nenhum site é capaz de fazer isso sem a construção dialógica de um conteúdo partilhado por professor e aluno. A desonestidade da sociedade civil está na escola e na universidade. É preciso encontrar novas formas que suplantem esse modelo arcaico de formar cidadãos do mundo, para que eles estejam comprometidos com uma ética fundada na co-responsabilidade e no bem comum. |